TEATRO ESPONTÂNEO

O QUE É TEATRO ESPONTÂNEO?

É uma modalidade de teatro, na qual tanto o texto como a representação são criados no decorrer do espetáculo, sem ensaio prévio. Em vez de textos pré definidos, são utilizados temas que inspiram as histórias. A Platéia é solicitada a participar da representação e a história é encenada à medida em que é elaborada. Os participantes contracenam entre si e com os atores profissionais da trupe. A beleza do espetáculo resulta da criatividade coletiva.

A COMPANHIA DO TEATRO ESPONTÂNEO

A Companhia do Teatro Espontâneo é uma equipe de profissionais que, desde 1989 vem pesquisando, desenvolvendo e aplicando o teatro espontâneo para as mais diversas situações. Além de manter um elenco que atua em suas apresentações, a Companhia é um centro formador de diretores e atores de teatro espontâneo. Sendo a pioneira na propagação desta técnica no Brasil, quase todas as trupes hoje existentes foram, de alguma forma, influenciadas pela Companhia do Teatro Espontâneo de forma direta ou indireta. Seu trabalho tem alcançado, inclusive, outros países da América Latina e Europa, em particular a Espanha.

PRINCIPAIS APLICAÇÕES

Sensibilização e reflexão sobre problemas coletivos, de forma lúdica, inventiva e participativa. J Intervenção em grupos e times para tratar de temas específicos; J Pesquisa e ação sobre clima de relacionamentos em organizações e comunidades; J Atividades educativas; J Expressão artística; J Entretenimento. As apresentações duram, em média, 1h30m.

MAIS INFORMAÇÕES E CONTATO PARA APRESENTAÇÕES:

Website: http://teatroespontaneo.hpg.com.br
Telefone: (19) 32436989

A espontaneidade como ferramenta do ator convencional e do ator de improviso   Ralmer Nochimówski Rigoletto - Psicólogo, Sexólogo, Psicodramatista, Diretor e Ator Convencional e de Teatro Espontâneo. Coordenador da Cia do Teatro Espontâneo   Colaboradores: Moysés Aguiar; Ana Edwirges Luz Egídio; Lisette Iaubi Contatore; Regiane Bataglini.

Não
Não sei se é um truque banal
Se um invisível cordão
Sustenta a vida real
Cordas de uma orquestra
Sombras de um artista
Palcos de um planeta
E as dançarinas no grande final

No dia 29/09/02, participei do workshop Trabalhando Grupos com Arte, dirigido pela psicodramatista Maria Elena Garavelli, de Córdoba, Argentina e promovido pela Cia do Teatro Espontâneo em Campinas. Dentre vários aspectos que foram abordados durante as atividades, um que me chamou a atenção fez referência às diferenças entre o ator convencional e o ator espontâneo ou, melhor designando, ator de improviso, quanto ao uso da espontaneidade em cena.

Quero mencionar que as diferenças conceituais que aqui apresento são na realidade diferenças técnicas e, proponho uma compreensão didática das mesmas especificamente no que alude à prática.

Começarei pelo básico dos básicos, esclarecendo a diferença acima mencionada: Ator, ator convencional e ator de improviso. O primeiro, por simples definição, é um artista que em sua prática, empresta seu corpo e sua voz para um personagem ganhar possibilidade de expressão pelo movimento e pela fala. No dicionário Aurélio, encontra-se a definição “agente do ato”.

O segundo, ao qual temos chamado de convencional, carrega em si as mesmas definições do anterior, apenas ganhando como acréscimo e especificação o fato de que desempenha sua arte num espetáculo estruturado, ao qual chamarei também de convencional. Este espetáculo é aquele em que o texto já foi escrito pelo autor, os personagens já tem seus traços particulares de personalidade, e, principalmente, o diretor define para os atores toda a marcação de cena, incluindo o movimento, a inflexão da fala, a intencionalidade, além de outros aspectos técnicos como trilha sonora, figurinos, iluminação, entre outras coisas, sempre dentro da sua concepção estética. Isso quer dizer que o texto, a ação, o como e o quando representar em cada cena desse espetáculo, já foram todos predefinidos e serão devidamente ensaiados, decorados e integrados para a estréia e as sucessivas apresentações.

Por fim, o ator de improviso pode ser considerado como o que atua em espetáculos cujo texto, ação dramática, trilha sonora, iluminação, figurinos e adereços e muitas vezes até os personagens secundários da trama, são criados exatamente no momento da ação. Pode-se entender, pela similaridade da prática teatral, que o ator de teatro espontâneo é um ator de improviso.

Quero ressaltar que não tenho a intenção de propor novas definições ou novos rótulos para um mesmo elemento. Também não quero problematizar a figura do ator. O objetivo das classificações acima descritas é, em verdade, esclarecer aspectos de uma “especialização” que se vê em outros ramos profissionais e que facilitam sobremaneira a sua compreensão. Com efeito, um médico pode ser cardiologista, urologista, psiquiatra ou outra especialidade qualquer, mas não deixa de ser médico, o que na verdade representa a condição primeira para que a outra possa acontecer. Assim, também o ator pode ser um “especialista” em mímica, pantomima, improviso, teatro convencional, entre outras formas.  

Nos últimos anos, falando-se um pouco de estética e técnica teatral, o publico foi condicionado a aceitar determinadas práticas cênicas como uma forma de entretenimento, diversão e até mesmo como sinônimo de boa atuação num espetáculo. O contato direto com o público foi amplamente estimulado, sendo difícil, nos dias de hoje, assistir uma apresentação onde essa integração ator/personagem e platéia não aconteça. Aparentemente, esse contato oriundo do Teatro Interativo, traz a platéia parcialmente para a cena e para o espetáculo, observando-se que para alguns espectadores isso é extremamente agradável, assim como para outros não.

Também nessa linha interativa, um erro ocorrido num texto ou numa cena pode ser largamente aplaudido, desde que haja uma piada ou uma “gracinha” feita pelo ator que errou. Isso, hoje em dia, é confundido por alguns com uma atuação espontânea. É importante destacar que essa tática difere muito do improviso. Moreno fala do impromptu, (não pronto) ou imprevisto em cena, considerando que esse fato inesperado leva o ator a um momento criativo que é o improviso. Esse improviso, na realidade, não escapa do texto, mas sim, conduz o ator de volta à ele e à cena para que o espetáculo continue.

Mais ainda, os “cacos” inseridos nos textos vem, também, reforçar o engano de que essa representação está sendo espontânea. O caco é uma fala que originalmente não existia no texto, mas que, durante o período de ensaios, se encaixa e passa a fazer parte dele. Para Brecht, o caco seria uma reafirmação para a platéia de que aquilo que está sendo assistido não faz parte da realidade. É apenas ficção. Esta prática está ligada à uma concepção estática específica e difere muito das falas de improviso e das falas soltas e perdidas. Estas últimas ganharam o mesmo valor das “gracinhas” cênicas, pois garantem que esse será um espetáculo único, personalizado e que jamais haverá outro igual. E com isso, acreditam alguns que o ator é um ótimo profissional e que é muito espontâneo. Ledo engano!!! O espetáculo convencional exige que o ator seja, antes de mais nada, um instrumento afinado nas mãos do diretor, que executará sempre a mesma sinfonia, ou seja, um espetáculo tem, efetivamente, que ser igual ao outro. E se seus atores o conseguirem, aí sim, devem ser ovacionados e considerados bons, dentro dessa proposta teatral.   No teatro de improviso ou no teatro espontâneo, o ator deve, também, respeitar a direção da cena, porém, muito ao contrário da outra expressão teatral, praticamente todo o texto e a maioria de seus movimentos serão resultado de seu ato criativo, conferindo, em especial, a originalidade ao espetáculo.

Por fim, chegamos ao ponto a que me proponho e que foi tema de uma discussão no workshop: A espontaneidade do ator convencional e do ator de improviso.

Efetivamente, a espontaneidade resulta de uma interação que acontece durante o ato cênico e onde, de certa forma, todos os participantes dessa interação, ou seja, equipe teatral e/ou platéia, funcionam como co-criadores.

Nessa linha de pensamento, acredito que um ator convencional, juntamente da equipe e da direção, pode ser espontâneo e criativo durante o processo de desenvolvimento do espetáculo e seus ensaios. Entretanto, as apresentações posteriores a esse processo, não constituem mais um momento criativo e sim reprodutivo. Reproduz-se o resultado do que foi ensaiado e decorado quantas vezes forem necessárias e sem alterações no texto ou nas marcações. A interação com a platéia se dá num nível subjetivo e indireto, não devendo interferir no ato cênico.

No teatro espontâneo, essa interação com a platéia marca especialmente o desenvolvimento da cena, podendo inclusive, eclodir um novo personagem a qualquer momento, alterando significativamente todo o rumo da historia. O ator espontâneo serve de facilitador para a criação da platéia e, sua própria criação funciona como “escada” para a espontaneidade da platéia. Sua relação é direta.

Enfim, o que marca especialmente toda essa diferença, inclusive no uso da espontaneidade, é que um ator convencional faz um espetáculo para alguém, enquanto o ator espontâneo faz um espetáculo com alguém. Esse alguém, obviamente, é a própria platéia

CARAS, CARETAS E CARICATURAS

Ralmer Nochimówski Rigoletto
Psicólogo – Psicodramatista
Cia do Teatro Espontâneo

“No peito do desafinado também bate um coração”

Já há algum tempo que observo, nas sessões de Teatro Espontâneo, que existe uma “tendência”, que podemos até mesmo considerar preconceituosa, de exagerar sobremaneira alguns tipos de personagem que surgem durante as dramatizações, quer seja como protagonista, quer seja num contra-papel ou apenas numa figuração. A esse exagero chamarei de CARICATURA.

Falei de preconceito pelo fato de que, na maioria das caricaturas, o personagem que sofre o exagero do ator, é um representante de um tipo social ou de um grupo social específico que pode ser (e na verdade, na dramatização exagerada, acaba sendo) alvo de deboche ou de crítica da parte dos demais personagens ou mesmo da platéia que está participando do Teatro Espontâneo. Em geral, esses personagens adotam um caráter simbólico que mexem nos construtos que trazemos acerca de seu exercício e existência no campo da realidade e que de alguma forma, incomoda.

As principais vítimas desse tipo de atuação são figuras religiosas (padres, freiras, pastores, pais-de-santo), figuras de autoridade (policiais, professores, pais), figuras homoeróticas e sensuais (gays, lésbicas, travestis e prostitutas), alguns tipos de profissionais técnicos, entre outros. Em todos estes casos, o aspecto que é tomado como foco do exagero por parte do ator, usa o referencial que ele aprendeu sobre o papel desempenhado, ou seja, o preconceito é social e está embutido na linguagem. O ator é o veículo do preconceito através do colóquio aprendido.

Habitualmente, a platéia reage à caricatura como se esta fosse um personagem cômico, por mais dramática que seja a cena em andamento. Os risos, entre outras manifestações, quase sempre revelam um certo desconforto pela presença daquele elemento naquela história. Mas, tanto o personagem quanto a reação que ele provoca tem a sua importância. O personagem, por trazer algum aspecto social importante de ser analisado pelo grupo em ação naquele momento. Já a reação, por vezes significa também uma quebra de tensões que estão insuportáveis. Logo, infere-se que o surgimento de uma caricatura, em dado momento, pode estar cumprindo a importante função de aliviar o teor tensional da dramatização em andamento. Cabe, no entanto, lembrar que o alívio da tensão nem sempre é benéfico. Este mecanismo pode estar a serviço das defesas grupais para que possa ser mantido o “status quo” do grupo ou de algum de seus integrantes. Cabe ao diretor notar essa sutil diferença e permitir ou não o crescimento da caricatura na cena.

Mas como lidar com o personagem caricato?
Em recente reunião / ensaio na Cia do Teatro Espontâneo, discutiu-se que a caricatura acontece em personagens que, a princípio, o ator ainda não assumiu plenamente. É um personagem que possivelmente não tem lastro nem história. Para tanto, há a necessidade de contextualizar o ator e integrá-lo ao personagem. Pensou-se em dois caminhos: Um deles, é a contracena em oposição ao personagem e o outro, a concordância, ambos num sentido de trazer o personagem puro, desprovido do preconceito e, portanto, livre da caricatura. Considera-se isso um respeito à pessoa do personagem. Na oposição, um auxiliar entra na cena para “desfazer” a máscara da caricatura, rejeitando-a na forma que se manifesta e solicitando do personagem uma reflexão mais séria quanto ao seu estar na cena e na história. Na concordância, o auxiliar atua à favor da caricatura, também prestando o serviço de trazer o personagem para um referencial no qual o ator possa apropriar-se dele. A quebra nem sempre é percebida de imediato. O que se vê é a história ganhando força novamente e um reaquecimento da cena no que tange ao conteúdo principal ou tema protagônico. Às vezes esse reaquecimento se dá pelo próprio personagem, antes caricato, agora portador da emoção ou mesmo do conflito na cena. Quando isso acontece, a atuação do auxiliar já foi cumprida e ele pode, então, deixar a cena. Deve-se lembrar que, ao auxiliar não é lícito caricaturar.

De maneira geral, a caricatura se desfaz quando o ator assume o personagem na história e retoma o foco desta, alvo do Teatro Espontâneo.

Nestas formas de lidar com a caricatura, possivelmente a platéia, que estava vivendo uma descarga tensional, reassuma o tema protagônico ou mesmo o ponto de conflito que originou a caricatura e, agora um pouco mais aliviada, tenha condições de viver a cena integralmente.

Ainda falando da platéia, cabe observar que, em grupos mais heterogêneos, podemos sempre contar com a presença de um ou mais elementos que sejam representantes reais do personagem caricaturado. Isso nos revela que também aí é necessária a atenção da equipe, evitando, se for o caso, que a caricatura assuma um teor agressivo ou depreciativo para o seu representante real e para que este não se sinta alvo de preconceito do grupo. Às vezes, um ator representa a sua realidade numa caricatura. Isso pode estar demonstrando a possibilidade de que no grupo exista foco de tensão quanto ao papel social dessa pessoa e, caricaturar o próprio papel signifique abrir espaço de aceitação pelo grupo e por si mesmo.

Por fim, é importante compreender que a caricatura é um exagero pejorativo na interpretação, partindo de um simples estereótipo para um caráter negativo e depreciativo do personagem e que acaba roubando a cena. Como estereótipo entendemos a escolha de um traço do personagem que está sendo representado, para exacerbação e conseqüente caracterização sem sombra de dúvidas e que, muitas vezes, auxilia a assunção do papel. Um exemplo disso seria o ator que interpreta um míope mantendo os seus olhos semicerrados e franzindo a testa como se estivesse com dificuldade para enxergar.

Colaboraram: Anadú, Lizette Laubi, Moysés Aguiar, Regiane
Membros da Cia do Teatro Espontâneo.